Me cansei de lero-lero e de rankings corporativos
- Luiz Serafim
- 29 de dez. de 2024
- 6 min de leitura
Atualizado: 2 de jan.

Faz uns 20 anos que me incomodo com muitos rankings que inundam o mundo. Os melhores filmes, músicas, restaurantes; as melhores atrizes, cantores, diretores; as empresas mais inovadoras; o publicitário do ano, CEO da década, a personalidade mais influente do pedaço, os empreendedores top abaixo dos 27 anos…
O estopim da intolerância se acendeu pra valer quando críticos da Revista Rolling Stone indicaram o álbum “Acabou Chorare” como o Melhor do Brasil em 2.007.
Tenho este álbum em vinil e adoro os Novos Baianos com deliciosos clássicos como Brasil Pandeiro, Mistério do planeta ou Besta é tu! A votação feita por “especialistas” poderia cravar essa definição de melhor álbum da Música Brasileira?
E Samba esquema novo do Jorge Benjor? Clube de Esquina de Lô e Milton? Ou Refavela de Gil? Falso brilhante da Elis? Transa do Caetano? Álibi da Bethânia? Cabeça Dinossauro dos Titãs? Da lama ao caos do Chico Science? E onde ficam sertanejo, samba, instrumental, hip hop?
Sinceramente, não rola. Acabou Chorare é um belíssimo álbum, dos melhores, mas não é “o melhor”, simplesmente porque isso não existe!
Podemos registrar que tal álbum foi o que mais vendeu, o que mais influenciou outras bandas, o que mais tocou nas rádios naquele verão, aquele que foi mais baixado nos streamings e até aquele preferido por duas dúzias de “especialistas” ou voto popular. Nada disso significa que seja o melhor! Precisaríamos de desinteressante disclaimer, evitando usar “melhor álbum da história” para algo menos sedutor como “o melhor álbum na opinião destes 25 especialistas abaixo”.
Eu já sentia desconforto quando acompanhávamos a lista dos melhores filmes do cinema. Cidadão Kane, O Poderoso Chefão, O Mágico de Oz, 2001: Uma odisseia no espaço, Cidade de Deus, Tokyo Story, Vertigo. São todos geniais, de épocas distintas, com histórias e investimentos diferentes, refletindo espíritos de tempos diferentes. Como comparar e dizer quem é melhor?
Você assistiu a “Jeanne Dielman, quai du commerce, 1080 Bruxelles”, escolhido em 2.022 como o melhor filme da história por 1.639 votantes “especialistas”?
No início de 2.023, a Rolling Stone novamente cutucou minha paciência com uma tal lista de 200 melhores cantores da história onde o Brasil teve só 3 representantes: Gal, João Gilberto e Caetano. Cadê Gil, Elis, Ney, Milton, Ivete, Robertão, Liniker?
Fico só imaginando onde ficariam vozes de outros países ainda menos influentes na música internacional. Só tenho uma certeza: a lista centrada na língua inglesa até traz muitas vozes bacanas, mas por favor… ampliem seus repertórios e, se colocarem alguma ordem, usem a alfabética. Aretha Franklin, a primeira da lista, é maravilhosa. Mas a melhor voz da história?
No mundo corporativo, na 3M co-liderei a inscrição da empresa em antigo ranking de inovação, promovido pela AT Kearney em parceria com a Época negócios. Era o Best Innovator Award e vencemos por 3 anos consecutivos. Claro que ficava feliz e sabia que tínhamos méritos para conquistar o reconhecimento. Questionário bem embasado, critérios pertinentes, auditores atuando com seriedade.
Ainda assim, pensava: A 3M é uma empresa inovadora. Mas é a mais inovadora do Brasil? Na verdade, a 3M era “a mais inovadora entre 2 centenas de empresas que se inscreviam na premiação, de acordo com critérios estipulados na ocasião, influenciada por nossa forma de mostrar dados e histórias com alguma subjetividade dos auditores do prêmio.
O Brasil tem mais de 20 milhões de empresas. Não conseguiremos chegar a esta “verdade” como nunca será possível saber qual o melhor álbum. Dá para colocar critérios e extrair dados sobre quem registra mais patentes, quem lança mais produtos e serviços, quem mais investe em P&D, quem mais interage com start-ups, quem desperta junto aos consumidores a percepção de inovação, mas nunca saberemos quem é realmente a empresa mais inovadora, um conceito tão aberto quanto escolher o melhor filme, álbum ou música.
Podemos concluir que aquelas diversas organizações, cada uma com sua jornada, em seu respectivo mercado, cumpriam os requisitos de uma empresa inovadora e mereciam um pertinente e admirável “selo de inovação” sem ocupar uma questionável posição na lista.
Joguei a primeira toalha para longe quando vi que a prestigiosa revista Fast Company colocou em 2.009 o comitê de comunicação da campanha do ex-presidente Barack Obama nos EUA como a “empresa mais inovadora” daquele ano. Claro que o comitê teve impacto revolucionário em como se faziam campanhas eleitorais, explorando o universo digital com pioneirismo, mas ora, aquele grupo não era uma empresa duradoura comparável, com desafios próprios dos contextos organizacionais. Faria sentido comparar o comitê pontual do Obama com Microsoft, Vale, Embraer e Google? O comitê do Obama mereceria destaque como “acontecimento inovador do ano”, mas nunca liderar lista que pretendesse retratar seriamente “as empresas mais inovadoras do mundo em 2.009”.
Nos restaurantes, mesma coisa. Fiquei feliz com os representantes brasileiros no ranking mundial da revista britânica Restaurant. Tenho certeza de que a Casa do Porco, Oteque, D.O.M, EVVAI, Lasai e Maní, os brasileiros na lista dos 100 melhores de 2.022 devem ser fenomenais, mas imagina quantos restaurantes existem espalhados pelo mundo, com propostas, estilos e comidas diversas. Assim, ostentar estrelas como restaurante bem avaliado e recomendado é excelente, mas como comparar a cozinha delicada do restaurante dinamarquês Gerânio, no topo da lista, com a Bodega do Sertão das Alagoas?
Claro que há rankings em todos os universos que são pertinentes e inspiradores.
No mundo dos esportes, é o máximo vibrar por talentos como a tenista Bia Haddad chegando ao 12o. Lugar no WTA, o surfista Filipe Toledo se consagrando como bicampeão do mundo, o velocista Petrúcio Ferreira conquistando o tricampeonato paralímpico com recordes nos 100 metros, a incrível ginasta Rebeca Andrade se celebrizando nas Olimpíadas de Paris e a skatista Rayssa Leal faturando seu tricampeonato mundial.
No mundo corporativo, há também rankings admiráveis. Sempre respeitei o Great Place to Work por dar peso significativo à voz dos próprios funcionários para avaliar diversas dimensões do trabalho dentro das organizações. O Reclame Aqui também oferece informações valiosas em formato de ranking sobre as empresas com os melhores índices de solução aos consumidores. Há muitas outras iniciativas que merecem admiração.
Naturalmente, rankings sérios exercem impacto poderoso na sociedade. Prêmios que incentivam empreendedores sociais, que reconhecem melhores práticas sustentáveis, que fomentam a criatividade, a comunicação efetiva, o atendimento excelente, entre tantas possibilidades, estimulam talentos, valorizam profissionais, instigam organizações a evoluir, reconhecem práticas inspiradoras, dão visibilidade às pessoas e temas, abrem portas a empreendedores, entre tantos efeitos positivos.
O Prêmio Brasil Criativo nasceu em 2014 como reconhecimento oficial da economia criativa brasileira e eu sempre fiz parte deste movimento de valorização da criatividade nacional. Mesmo que seja impossível dizer que determinado projeto foi o melhor do Brasil em certa categoria, são seguidos critérios, selecionando projetos entre aqueles que se inscreveram e onde finalistas e vencedores ganham visibilidade, estímulo e apoio para seguirem jornadas transformadoras. É maravilhoso ver a turma da Histórias de ter.a.pia, do Juicy hub, do Pimp my carroça, do Equal Moda Inclusiva, da Confeitaria do Oliveira e de dezenas de empreendedores reconhecidos, construindo trajetórias impactantes.
Uma das iniciativas corporativas cujo conceito mais me encanta é o Selo Pró-Ética concedido pela Controladoria Geral da União para fomentar a integridade empresarial. A cada biênio, as empresas que se inscrevem e se enquadram nos requisitos obrigatórios, comprovando suas práticas com evidências documentais validadas por um comitê, recebem o selo pró-ética. Não é uma certificação e também não há ranking. Não tem uma empresa mais ética que a outra. Quem recebe o selo referente àquele biênio demonstrou evidências suficientes para ser considerada uma empresa ética pela CGU e Instituto Ethos. Quanto mais empresas reconhecidas, melhor.
A certificação no Sistema B se enquadra nessa mesma moldura. Bem explica o site do movimento Sistema B Brasil que “ser B não é uma posição, mas sim uma direção”, uma orientação para um futuro mais sustentável com práticas socioambientais mais positivas.
Os indicadores de inclusão Ethos do qual fui próximo se concentram em contribuir para que as organizações tirem retratos sobre seu poder de inclusão para que possam melhorar com relação a si mesmas e ao mercado, e não destacam a lista das mais inclusivas.
O Prêmio 25 Mulheres na Ciência da 3M na América Latina, um dos últimos projetos dos quais participei na empresa, segue a cartilha de valorizar cientistas mulheres, mas sem colocações, Mais importante que tudo é valorizar mulheres cientistas.
Por fim, explicando o título do meu artigo, não é que eu tenha me tornado um rancoroso inimigo de rankings. Já ganhei prêmios e respeito com admiração todos aqueles, profissionais e empresas que conquistam reconhecimentos por seus talentos e realizações.
Temos de estar conscientes de que alguns rankings são meras táticas para gerar notícia e dinheiro, criadores de “barulho” e estimulantes de vaidades enquanto há outros que são realmente sérios, inspiradores e geram belíssimos impactos e movimentos.
Lembro de episódio recente em que um respeitado executivo de empresa global afirmou em evento que queria que sua empresa se tornasse a “mais sustentável do mundo”. Acho que ele não entendeu nada sobre essa fronteira, afinal, na nova economia, as empresas atuam para serem melhores para o mundo e para ser a melhor do mundo.
Que o mundo corporativo siga disseminando rankings sérios que estimulem a competição saudável, as ambições de evolução profissional e organizacional, e premiem a excelência, a consistência, a produtividade, a inclusão, a criatividade, a capacidade de transformação, da maneira mais justa possível.
Para o futuro, torcerei por mais reconhecimentos que levem as organizações não para serem sempre melhores e maiores que as outras, mas sim melhores do que foram ontem e melhores para o mundo hoje e amanhã!
PS.: Esse artigo foi publicado originalmente em administradores.com em março de 2023. Para ler a edição original, clique em https://www.administradores.com.br/artigos/por-que-me-cansei-de-rankings-e-aposto-em-novos-caminhos
Comentários